sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A DEGUSTAÇÃO E O HABITO DA GRATUIDADE

Fortaleza vive um momento peculiar com relação ao vinho, de um lado existe um aumento considerável do consumo, por parte de todas as classes sociais, como podemos facilmente perceber observando os carrinhos de compra dos consumidores nos supermercados, onde o vinho aparece com certa freqüência mesmo entre aqueles que, ate pouco tempo atrás, preferiam outras bebidas, sensibilizados talvez pelos benefícios que o consumo moderado do vinho traz para saúde.

Entre os consumidores de classe médio alta, onde se situa a maior parte dos apreciadores assíduos, que preferem vinhos finos e tem por habito consumir pelo menos uma vez por semana, cresce o interesse pela cultura do vinho e a curiosidade para ir alem do simples ato de beber,  procura - se agregar apreciação a conhecimento, fenômeno que, digo isso por experiência própria, leva a uma diminuição do consumo geral, a uma mais atenta percepção das sensações ligadas ao vinho, buscando o prazer da degustação, que proporciona descobertas interessantes, acerca da riqueza de aromas e sabores que o vinho possui.

Justamente para agradar e cativar estes consumidores várias degustações acontecem, em lojas especializadas, restaurantes e similares, em sua maioria trata - se de eventos organizados por empresas produtoras ou importadoras, através de seus distribuidores locais.
As características principais destes eventos costumam ser duas, em primeiro lugar como quem organiza e' uma entidade "vendedora" costuma oferecer a custo zero; em segundo lugar, mas em decorrência disso, existe uma tendência obvia de explorar comercialmente a ocasião, as vezes isso muda o foco cultural do evento para o comercial, troca perfeitamente aceita pelos convidados os quais, em definitiva, nada pagaram para poder se opor a eventuais explorações.

E' claro que não estamos nos referindo a eventos organizados por entidades regionais, no esforço de divulgar os vinhos de determinada região ou pais, ate porque este formato de evento costuma reunir vários expositores, muitas vezes concorrentes entre si.
  
A pergunta e', com a freqüência de eventos e degustações gratuitas, quando o consumidor estará disposto a pagar por algo que está acostumado a receber de graça?
Ate' que ponto as degustações oferecidas satisfazem o interesse cultural dos apreciadores de vinho?
Ou o que vale e' apenas beber vinhos (bons?) sem pagar e para as informações e a cultura a internet pode resolver.

Em outras cidades em estagio mais desenvolvido com relação ao vinho já se aceita a idéia de que e' preciso pagar, mesmo que não muito, para participar de eventos que realmente enriqueçam. A formação na área da sommellerie costuma ser cara, o preparo para poder ministrar cursos e palestras leva vários anos de estudo e aprendizagem, como isso pode ser repassado sem uma compensação financeira?
Os vinhos de qualidade são caros e o degustador progride de fato quando compara vários estilos de vinhos, evidenciando as diferenças, orientado por alguém que saiba mais do que ele, não por alguém interessado em fazer o comercial do produtor.

Para citar como exemplo, na semana retrasada uma rede de lojas de Fortaleza organizou uma degustação vertical de Don Melchor, no estilo da degustação relatada na revista Adega de Setembro, com as safras 1991/2005/2006/2007, degustação comandada pela enóloga da Concha y Toro em pessoa; obviamente o evento era a pagamento, sabem qual foi o resultado? O evento foi cancelado por falta de participantes, agora, se em lugar de Don Melchor fosse uma degustação gratuita de Trio ou algo parecido, sou capaz de apostar que dava fila na entrada, com ou sem a enóloga. Triste, não é?

Sempre a este ponto o questionamento e' a quem cabe o primeiro passo para seguir adiante; toca aos consumidores procurarem por algo desvinculado da parte comercial do vinho?
Cabe aos lojistas, restaurantes etc. oferecer algo diferente, a pagamento, porém de cunho cultural?

Alguém precisa se decidir, mesmo sabendo que, das primeiras vezes, devera' lutar contra os hábitos de um publico que está acostumado a receber convites.

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